Letícia Gomes

A inteligência artificial pode ajudar na saúde mental? O que a ciência já descobriu

Nos últimos anos, ferramentas de inteligência artificial, como o ChatGPT, passaram a fazer parte da rotina de milhões de pessoas. Além de auxiliar em estudos, trabalho e organização, muitas pessoas têm recorrido à IA para conversar sobre sentimentos, ansiedade e dificuldades emocionais. Mas será que essa tecnologia pode realmente contribuir para os cuidados em saúde mental?

Uma revisão científica publicada em 2025 na revista JMIR Mental Health reuniu as evidências disponíveis sobre o uso clínico do ChatGPT em saúde mental e trouxe resultados promissores, mas também importantes alertas.

O que os pesquisadores investigaram?

Os autores realizaram uma revisão de escopo, um tipo de estudo que reúne e analisa pesquisas já publicadas sobre um determinado tema. O objetivo foi compreender como o ChatGPT vem sendo utilizado em contextos clínicos relacionados à saúde mental e quais evidências existem sobre sua eficácia e segurança.

Quais foram os principais usos encontrados?

Os estudos analisados mostraram que a inteligência artificial pode desempenhar diferentes funções, como:

  • auxiliar na identificação de sintomas psicológicos;
  • apoiar profissionais na avaliação de casos clínicos;
  • oferecer estratégias baseadas na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC);
  • fornecer psicoeducação sobre transtornos mentais;
  • ampliar o acesso inicial a informações e suporte emocional.

Esses resultados sugerem que a IA pode ser uma ferramenta complementar, especialmente em locais onde há escassez de profissionais ou dificuldade de acesso aos serviços de saúde.

Quais são as limitações?

Apesar do potencial, os pesquisadores destacam que a inteligência artificial não substitui o acompanhamento psicológico ou psiquiátrico.

Entre os principais riscos identificados estão:

  • respostas incorretas apresentadas com aparente confiança;
  • limitações para reconhecer situações de crise ou risco de suicídio;
  • preocupações relacionadas à privacidade dos dados;
  • dificuldades para compreender aspectos subjetivos e emocionais complexos que fazem parte da relação terapêutica.

Em outras palavras, embora a IA consiga fornecer informações úteis, ela ainda não possui julgamento clínico, responsabilidade ética nem a capacidade humana de estabelecer uma relação terapêutica.

O que isso significa na prática?

A inteligência artificial pode ser uma excelente aliada para:

  • aprender sobre saúde mental;
  • organizar pensamentos;
  • receber informações baseadas em evidências;
  • complementar o trabalho de profissionais.

No entanto, quando há sofrimento intenso, prejuízo no funcionamento diário ou risco à própria vida, o atendimento com um psicólogo ou psiquiatra continua sendo indispensável.

A ciência mostra que a inteligência artificial tem potencial para transformar os cuidados em saúde mental, tornando informações e alguns tipos de suporte mais acessíveis. Porém, as evidências atuais indicam que seu melhor papel é o de ferramenta complementar, e não de substituta da atuação profissional.

À medida que novas pesquisas forem publicadas, será possível compreender melhor como integrar essas tecnologias de forma ética, segura e realmente benéfica para pacientes e profissionais.


Referência

Balan, R., & Gumpel, T. P. (2025). ChatGPT Clinical Use in Mental Health Care: Scoping Review of Empirical Evidence. JMIR Mental Health, 12, e81204. https://doi.org/10.2196/81204

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